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Brasil unificado: um sonho possível?

há 1 hora
4 min de leitura
Depois das eleições de 2026, reconstruir o diálogo entre brasileiros deve ser uma prioridade. Educação, responsabilidade das lideranças e enfrentamento da violência são caminhos para transformar diferenças em convivência democrática.

Por Marcelo Jorge


As urnas encerram uma disputa, mas não conseguem, sozinhas, encerrar as desavenças de um país. Passadas as eleições presidenciais de 2026, o Brasil enfrenta um desafio que ultrapassa o resultado eleitoral: recuperar a capacidade de conversar, conviver e trabalhar por objetivos comuns. A pergunta é urgente e merece uma resposta coletiva: ainda podemos construir um Brasil unificado?

Podemos. Mas essa construção exige reconhecer que nenhuma corrente política representa, sozinha, toda a população.

A rivalidade entre Lula e Bolsonaro, que marcou os últimos anos e teve continuidade na disputa de 2026 entre Lula e Flávio Bolsonaro, tornou-se uma referência para a maneira como parte dos brasileiros interpreta o país.

O risco aparece quando a preferência eleitoral passa a determinar o valor atribuído a uma pessoa, como se o voto fosse suficiente para definir seu caráter.

Nesse ambiente, o adversário pode virar inimigo. Uma conversa de família transforma-se em confronto. Uma publicação nas redes sociais provoca humilhações, ameaças e rompimentos. Quando esse comportamento se instala, a política perde sua função de buscar soluções e passa a alimentar uma disputa permanente por quem consegue desqualificar mais o outro.

A crise também envolve a identidade brasileira. Somos uma população formada por diferentes origens, culturas, religiões e experiências sociais. Essa diversidade é uma riqueza, mas convive com desigualdades e sentimentos de exclusão. Quem não se sente ouvido pode encontrar em um grupo político uma fonte de pertencimento.

O problema surge quando pertencer exige rejeitar todos os que pensam diferente.


Bandeiras, cores, expressões e até manifestações culturais passam a funcionar como sinais de separação. Aos poucos, corre-se o risco de reduzir um país inteiro a dois campos, apagando a diversidade existente dentro da própria esquerda, da direita e entre os cidadãos que não se identificam com nenhuma delas.

Essa hostilidade pode atrasar o Brasil. Quando toda proposta é julgada apenas pela identidade de quem a apresenta, boas iniciativas encontram barreiras antes mesmo de serem discutidas. Saúde, educação, segurança, emprego e infraestrutura precisam de continuidade, fiscalização e cooperação. Uma sociedade em campanha permanente tem mais dificuldade para estabelecer prioridades duradouras.

Reconhecer esse problema não significa atribuir responsabilidades iguais a todos. Cada ameaça, agressão ou abuso precisa ser apurado conforme os fatos e a participação de seus responsáveis. A defesa da convivência democrática exige coerência, inclusive quando o excesso parte de alguém com quem concordamos.

A história mundial oferece exemplos de sociedades que precisaram reconstruir suas relações depois de divisões profundas. Na África do Sul, a superação do apartheid exigiu enfrentar um passado de segregação racial e graves violações de direitos humanos. Criada com base em uma lei de 1995, a Comissão da Verdade e Reconciliação buscou contribuir para esse processo, dando espaço ao reconhecimento das violações e à discussão de suas consequências.

Na Irlanda do Norte, décadas de conflito envolveram identidades nacionais, questões religiosas e disputas políticas. O Acordo da Sexta-Feira Santa, firmado em 1998, estabeleceu bases para a paz e mecanismos de compartilhamento do poder entre comunidades historicamente adversárias. A convivência precisou ser sustentada por negociação e instituições que reconhecessem as diferenças.


São experiências muito diferentes da realidade brasileira, tanto nas causas quanto na dimensão da violência. Ainda assim, oferecem uma reflexão útil: superar divisões exige compromisso, regras e disposição para reconhecer a dignidade de quem está do outro lado.

No Brasil, parte dessa transformação pode começar nas escolas e universidades. É necessário fortalecer o ensino de ética, cidadania, direitos humanos e respeito às diferenças, por meio de disciplinas e atividades permanentes, adequadas a cada etapa da formação.

Os jovens precisam de oportunidades para aprender a discordar com argumentos, identificar informações falsas, ouvir opiniões distintas e resolver conflitos sem violência. Debates mediados, projetos comunitários e exercícios de participação democrática podem aproximar esses princípios da vida cotidiana. Para isso, os professores também precisam de formação e apoio.

Essa educação deve preservar o pluralismo e estimular o pensamento crítico. O estudante precisa ter liberdade para perguntar, analisar e construir suas próprias posições, compreendendo que o colega possui o mesmo direito.

O Legislativo também tem responsabilidade. O Congresso Nacional deve avaliar a aplicação das leis existentes e eventuais lacunas na resposta a ameaças, perseguições, agressões e incitação à violência por motivação política. Qualquer nova punição precisa definir claramente a conduta proibida, prever consequências proporcionais e garantir o direito de defesa.

A expressão “excesso de polarização”, sozinha, é vaga demais para fundamentar uma punição. A legislação deve alcançar atos concretos de violência e intimidação, preservando críticas, manifestações pacíficas e opiniões políticas. A Constituição protege tanto a liberdade de expressão quanto o pluralismo político.

As assembleias legislativas e as câmaras municipais podem contribuir com leis e políticas de educação para a cidadania, prevenção da violência, acolhimento de vítimas e, dentro de suas competências, medidas administrativas contra condutas claramente definidas. A criação de crimes e penas é matéria de competência privativa da União, conforme a Constituição.

Também cabe às lideranças dar o exemplo. Presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares e dirigentes partidários precisam compreender o alcance de suas palavras. Condenar a violência apenas quando ela atinge aliados enfraquece qualquer discurso de pacificação.

A imprensa, as plataformas digitais e os próprios cidadãos têm sua parcela de responsabilidade. Conferir uma informação antes de compartilhá-la, recusar a humilhação como entretenimento e interromper uma discussão que se tornou agressiva são atitudes possíveis no cotidiano. Projetos que aproximem pessoas de diferentes posições em torno de problemas do bairro, da escola ou da cidade também podem reconstruir a confiança.

Um Brasil unificado continua sendo um sonho possível. Será um país com debates firmes, oposição atuante e liberdade para escolher caminhos diferentes, sustentado pelo compromisso de proteger a democracia e a dignidade de cada pessoa.

O primeiro passo é reconhecer que o brasileiro que vota diferente continua tendo o mesmo direito de pertencer ao país. O futuro será melhor quando conseguirmos construí-lo juntos.

 
 
 

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