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A ‘castração’ do Festival de Inverno de Garanhuns. Ou, o Colapso anunciado do FIG

*Por Marcelo Jorge


‘O MAIOR EVENTO ARTÍSTICO CULTURAL DAS AMÉRICAS!’, foi o bordão que repeti durante 26 anos no microfone do denominado ‘Palco maior do FIG’ como Mestre de Cerimônias com a anuência dos diversos gestores que passaram no Palácio do Campo das Princesas neste período. Representei assim, os nossos colegas de imprensa de Garanhuns além de falar também pela Fundarpe e Secretaria Estadual de Cultura.

Creio que nesse tempo conseguimos cumprir a missão árdua, porém prazerosa.

Mas, infelizmente com a 32ª edição do FIG anunciada, hoje assisto (é A MINHA OPINIÃO) o bordão acima que eu narrava, transformar-se em “O MAIOR RADIOLÃO EM PRAÇA PÚBLICA DO NORDESTE!”. Afinal, sem deixar de reconhecer os méritos e a importância artística de cada atração anunciada e já contratada para o entretenimento, meu lamento não é pelo que vem, mas pelo que deixará de vir para Garanhuns.

Explico:

Foto: Morgana Narjara

Retorno financeiro, todo evento deixa: Ambulantes, bares, pousadas, restaurantes, lanchonetes, alguns comércios de souvenirs, postos de combustível, hotéis, motéis  e outras atividades afins registram maior lucratividade em festas que vão de vaquejadas a quermesses; de cavalgadas a festas de padroeiros; de eventos carnavalescos a missas do vaqueiro. Mas o Festival de Inverno de Garanhuns não nasceu, cresceu e ficou nacionalmente robusto apenas com os shows de entretenimento. Estes sempre foram a culminância de um dia de atividades que iam de apresentações teatrais, espetáculos de dança, espaços literários, gastronomia de época, mostras de cinema, música instrumental e erudita, exposição e venda de artesanato e produtos locais e até mesmo cursos de formação nestas áreas. Cursos estes que inclusive formavam artistas anônimos, dos quais  muitos vieram a tornarem-se atração artística nos festivais seguintes.

E essa construção plural, me perdoem, mesmo com toda pompa, luzes e pirotecnia, não acontece apenas na Praça Mestre Dominguinhos!
Foto : Morgana Narjara

No denominado Polo Principal, apresentam-se grandes e médias atrações musicais que tocam durante todo o ano em teatros, parques, bares, pubs, feiras, ginásios e casas de eventos do estado e do pais. As mais famosas e atuais, com cachês estratosféricos. As mais antigas e fora de mídia e de moda, atraem um público mais restrito e maduro, equilibrando a idade biológica dos fãs na praça. Porém, continuo a repetir, para não precisar desenhar: todas essas atrações já são apresentadas e vistas de forma exaustiva nas redes de TV, rádios e nas mídias sociais, o que não estimula a um turista viajar centenas de quilômetros, por exemplo, de Salvador, Aracaju ou Fortaleza até Garanhuns para apreciar. Este visitante vem ávido para conhecer a cultura pernambucana, que para ele é algo novo e encantador: novas bandas e propostas da cena local e regional, mestres do artesanato, degustar a culinária e consumir tudo o que ocorre nos palcos alternativos, cujo público pode até ser menor que o da ‘praça principal’, mas ora bolas, este é o sentido do Festival: Fazer crescer os emergentes culturais e todas as suas linguagens!

Um Festival castrado, com visibilidade apenas para um palco e um arremedo para os demais – acaso ocorram -, é uma forma de matar gradativamente o evento, sangrando a veia que nos 31 últimos anos fez circular as artes e a cultura desses encontros, alguns mais atrativos outros menos, como tudo na vida, cujo legado ajudou na construção dessa bela história e deu a boa reputação ao glorioso Festival de Inverno. ‘Castrar’ o FIG é não dar o direito das próximas gerações de conhecerem o artista que naquela sua edição inicial pode até não ter fama, nem prestígio, mas é semente plantada que em outras edições chegará também a dar frutos...  Afinal, todos sabem que castrados não reproduzem.

O FIG trouxe por exemplo, um Chico Science ainda desconhecido que, após visibilidade por aqui, escancarou seu sucesso em todo o país e até em Nova Iorque; O FIG encantou a diretora de cinema, produtora, roteirista assistente de direção e designer de produção Tizuka Yamasaki; extasiou o criativo carnavalesco Joãzinho Trinta; arrebatou o genial pianista João Carlos Martins; emocionou o sensacional Ariano Suassuna, o qual em Garanhuns, dentro de um FIG, apresentou a última aula espetáculo da sua vida, deu mote para os elogios do saudoso Luciano do Vale, dentre tantas outras celebridades, que assim como estes também vieram a Garanhuns para cultuar a arte e retornaram empolgados.


Pra finalizar, o FIG tem ainda as marcas dos governadores Joaquim Francisco, Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos, Eduardo Campos, Paulo Câmara e Raquel Lyra; Municipalmente falando, tem semelhantes marcas dos prefeitos Ivo Tinô do Amaral, Bartolomeu Quidute, Silvino Duarte, Luiz Carlos de Oliveira e Izaías Régis. Deste modo, mesmo com suas diferenças ideológicas na política, todos estes gestores, estaduais e municipais, de maneira nobre deram as mãos para a construção destas mais de três décadas do FIG.

É uma pena que a atual mão municipal, em nome da própria carreira, encolheu a sua mão para uma parceria benéfica, respeitosa e legítima proposta pelo Estado, desconstruindo tudo o que os nomes citados acima construíram e agora ameaçando deixar exatamente a essência do FIG na mão...

 

*Marcelo Jorge é jornalista, consultor, radialista, mestre de cerimônias (26 anos apresentando oficialmente o FIG), publicitário e apaixonado pelo Festival de Inverno de Garanhuns.

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